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02 setembro 2011 14h58 - Atualizado em 02 setembro 2011 14h59

Documentário inédito, de Maria Raduan, tem estreia no Festival É Tudo Verdade com exibição em São Paulo e no Rio de Janeiro

Selecionado para a mostra competitiva brasileira do Festival É Tudo Verdade, Vale dos Esquecidos, primeiro longa dirigido por Maria Raduan, tem como cenário a região do Mato Grosso onde foi a fazenda Suiá-Missú, considerada o maior latifúndio do mundo na década de 70, a área é equivalente a 252 vezes a ilha de Manhattan.

O documentário, que será exibido nos dias 04 e 05 de abril no Rio de Janeiro e 06 e 07 de abril em São Paulo, aborda a longa disputa pela posse dessa região, que se arrasta há mais de quatro décadas e está longe de ser resolvida. A caótica situação revela índios expulsos das suas origens, posseiros na busca por um pedaço de terra, grileiros invasores, sem-terras à espera de decisões políticas e fazendeiros na luta por suas propriedades.

Imagens de fogo e terra permeiam todo o longa, pontuado pelos depoimentos dos personagens:  cacique Damião Paridzané, líder Xavante Marawãtsède; Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, indicado duas vezes ao Prêmio Nobel; Dario Carneiro, funcionário da fazenda na época; John Carter, fazendeiro; Filemon Limoeiro, político; Rosa Silva, líder dos sem-terra e Neto Figueiredo, posseiro.

“A princípio queria entender a história dos índios e durante a filmagem percebi que existiam muitas outras variáveis. Seria impossível contá-la sem retratar as outras. Foi quando decidi que o Vale dos Esquecidos seria uma radiografia de como é a Amazônia no Brasil”, explica a diretora. Uma região “que foi esquecida pelas autoridades e é tão superficialmente retratada pela mídia. Uma realidade que me deixou curiosa e assustada”, conta Maria Raduan.

Com roteiro assinado por Felipe Braga e Maria Raduan, direção de fotografia de Sylvestre Campe, montagem de Jordana Berg, produção de Rodrigo Teixeira e trilha sonora de Almir Sater, Vale dos Esquecidos é a história de um pedaço do Brasil em guerra contra si mesmo.

O diretor de fotografia aponta o fogo como um dos elementos que mais influenciou o seu olhar no documentário. Ele conta que “o filme todo tem um tom quente e amarelo, pois o fogo é algo muito presente na vida daquelas pessoas e se transformou na principal arma de todos eles".

Por meio de um sólido trabalho de pesquisa, repleto de fotos raras, áudios da época, imagens atuais e depoimentos contundentes, o documentário pode causar polêmica pelo mérito de colocar de forma isenta e imparcial toda a complexidade do conflito: “Não há uma verdade e não acho possível apontar um único culpado. Há apenas uma constatação: o homem quer uma terra para chamar de sua e isso perpetua a luta pela posse.”, conclui a diretora.

Os protagonistas do Vale

"Na hora do embarque eles nos cercavam como se fôssemos bois, nos empurravam para dentro do avião sem o nosso consentimento. Essa terra era nossa e fomos arrancados daqui", conta o cacique Damião Paridzané, criança na época que sua tribo foi expulsa.

Dom Pedro Casaldáliga chegou a região como missionário e logo percebeu  que ‘a terra’ era a raiz do conflito. “A terra dos índios, a terra dos fazendeiros, a terra dos sem-terra, dos posseiros e a terra dos peões que trabalhavam a favor da terra dos fazendeiros. Então a palavra terra passou a ser 'a' palavra.”, afirma o religioso.

Destaca-se também o depoimento do então funcionário da recém-criada fazenda, Dario Carneiro. Foi ele, em 1966, o pioneiro no contato com os índios, “a hora que pousamos os índios estavam lá na pista (…) eles não falavam português e não havia ninguém ali que falasse a língua deles (…) fui me entrosando com eles e no final tudo o que dizia respeito a índio na fazenda era comigo”.

Dos que chegaram depois estão o fazendeiro, Gilberto Rezende. Ele adquiriu parte da fazenda com o compromisso de regularizar a situação dos posseiros. Hoje, dizem cobrar uma taxa para fazer as escrituras. Muitos posseiros o acusam delas não terem valor legal, "se fosse tão ruim quanto algumas pessoas me julgam, como sobreviveria em meio a quase quinhentos posseiros? Eles já teriam me dado um tiro. Mas ando de peito aberto, não porto arma e o pessoal me acusa", defende-se.

O politico Filemon Limoeiro, também comprou uma propriedade na área da Suiá-Missu e não teme ter que devolver a terra para os índios, "comprei escriturada, para sair eles [o governo] vão ter que me indenizar (...) A Constituição me dá direito a propriedade, tenho registro e escritura”.

O norte-americano John Carter se mudou para a região em 1996, junto com sua mulher brasileira, para cuidar de sua fazenda. Ele lutou como pôde para defender seu território do fogo e dos posseiros que tentaram invadir sua propriedade, "eles [os posseiros] queimaram 4200 hectares de floresta e mais 4000 hectares de pastos, perdemos tudo e tive que vender metade do nosso gado". Recentemente, depois das filmagens, Carter vendeu suas terras devido às constantes ameaças de morte, mas profetizou: “na medida em que as pessoas forem conhecendo a história perceberão que não haverá solução sem que todos cheguem a um consenso.”

Neto Figueiredo, posseiro, afirma “Quem grila, não produz. Só comercializa terra. O posseiro trabalha e ele compra a terra de terceiros.”

Rosa Silva, líder dos sem-terra, apresenta sua humilde casa onde vive com 20 pessoas e destaca “a batalha do grupo para poder ter um pedaço de terra”.

Os desafios da filmagem

Apesar da intimidade com o tema rural, por ter produzido anteriormente os documentários “Mulheres da Roça”, e “Rubico”, a diretora Maria Raduan encontrou novos desafios no Vale dos Esquecidos. O maior deles por causa da extensão do território - mais de 1.5 milhão de hectares.

Segundo Raduan “tudo era muito longe. Para sair de Goiânia e chegar até o Vale dos Esquecidos foram necessárias 14 horas de viagem. Qualquer mudança de locação necessitava de muitas horas de transporte. Para encontrar um entrevistado, a viagem poderia durar até duas horas”, relembra.

O diretor de fotografia de Sylvestre Campe, alemão radicado no Brasil há 17 anos, conseguiu dar sentido poético à monotonia de uma região desabitada, com grandes dimensões e repleta de queimadas. "Para sensibilizar a audiência, mesclo duas câmeras que definem a linguagem do filme: uma delas muito autêntica, quase amadora, e outra super estética e poética. Com essa mistura consegui transmitir a intensidade da natureza na região", afirma o diretor.

O contexto histórico da região do Vale dos Esquecidos

O Estado do Mato Grosso ocupa uma área de 903.357 km2, a maior extensão territorial do país, e combina características de três biomas: Pantanal, Cerrado e Amazônia. Nos anos 70, o governo incentivava a ocupação da Amazônia e a exploração de riquezas naturais. Desta forma, o estado atraía trabalhadores agrícolas de outras regiões do país interessados numa das melhores áreas de colonização existentes na época.  Neste contexto surgiu a então maior fazenda do mundo, a
Suiá-Missú, com 1,5 milhão de hectares.

O latifúndio foi criado pelo Grupo Ometto. A ação incluiu o trabalho forçado e a expulsão de diversos integrantes da tribo Xavante Marawãtsède, habitantes originais da região. Após o Grupo Ometto, o controle da fazenda foi passado para a empresa Liquifarm Agropecuária e posteriormente, nos anos 80, para a petrolífera italiana Agip do Brasil, que, em acordo com o governo nacional após a ECO 92, propôs a devolução das terras aos indígenas, resolução que até hoje não pode ser concretizada devido ao confronto regional entre índios, posseiros, grileiros e sem terra.

Os conflitos territoriais e os embates com a cultura indígena cresceram na mesma proporção que os problemas causados pela expansão demográfica em uma área geograficamente tão isolada: sistema de transporte precário, rodovias insuficientes, falta de saneamento básico, energia elétrica escassa, problemas de saúde e educação.

FICHA TÉCNICA
Direção: Maria Raduan
Direção de fotografia: Sylvestre Campe
Edição: Jordana Berg
Roteiro: Maria Raduan e Felipe Braga
Trilha sonora: Almir Sater
Edição de áudio: Beto Ferraz e Rodrigo Ferrante
Produção: Rodrigo Teixeira e Maria Raduan
Realização: Tucura Filmes e RT Features

Para mais informações visite o site e o facebook: www.valedosesquecidos.com.br

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Festival Internacional De Documentários É Tudo Verdade
31 de março a 10 de abril.

Exibição do documentário Vale dos Esquecidos – Mostra competitiva brasileira de longas e médias.

Rio de Janeiro
Unibanco ArtePlex sala 6
04/04 segunda-feira
21h00 - Vale dos Esquecidos / BRASIL / 72min / digital
05/04 terça-feira
13h00 - Vale dos Esquecidos / BRASIL / 72min / digital

São Paulo
Cine Livraria Cultura sala 1
06/04 quarta-feira
21h00 - Vale dos Esquecidos / BRASIL / 72min / digital
07/04 quinta-feira
15h00 - Vale dos Esquecidos / BRASIL / 72min / digital

assessoria de imprensa